quinta-feira, janeiro 20, 2011
Cavaco Silva, entre o mistério e o mito
«Como disse no princípio, Cavaco inspira-me um sentimento muito próximo do horror. Um homem como ele não pode existir. E não existe: a humanidade começa na dúvida e ele não tem dúvidas. Mas não o odeio, longe disso, e descubro-me mesmo por ele uma certa compaixão. Mais dia menos dia, a realidade, que até aqui a sorte lhe permitiu ignorar, levantará a sua feia cabeça e encontrá-lo-á desarmado. Não é um destino invejável.» Este é o último parágrafo de um texto da autoria de Vasco Pulido Valente (in “Às avessas”, Assírio & Alvim, 1990), sobre o “O mistério de Cavaco”.
Estou longe de desejar um destino trágico ao próximo e, em particular, ao ex-primeiro-ministro e actual Chefe de Estado. Creio, todavia, que Cavaco Silva é a combinação perfeita de duas coisas: a simplicidade e o mistério. É um homem comum, que, honra lhe seja feita, subiu a pulso todos os degraus da vida, a partir de uma crença inabalável no conhecimento e no trabalho.
Do ponto de vista da criação da figura nacional, o líder que governou Portugal numa época de "vacas gordas" é, em certa medida, uma personagem falsamente misteriosa, mas ele sabe colher os frutos dessa construção. Há muita criatura que acredita que Cavaco é infalível. Ora, Cavaco errou tantas vezes como todos nós, nos pequenos e nos actos maiores, e nem mesmo se nascesse duas vezes, deixaria de errar.
Indubitavelmente rigoroso; honesto, sem dúvida. Teimoso sempre. Sisudo em toda linha; reservado excessivamente. Senhor de um autocontrolo absoluto e de uma pose programada. Eis os traços do homem. Acompanham-no. Fazem-no.
No que se refere à sua actuação enquanto Presidente da República, cometeu três erros relevantes: foi incoerente quando promulgou diplomas que a sua natureza recusaria per si; foi imprudente e colossalmente silencioso em várias ocasiões (quando demorou a “forçar” a saída de Dias Loureiro do Conselho de Estado, na questão da lei das Finanças Regionais – e lembro-me de fazer uma comunicação ao pais, em pleno Verão a propósito deste assunto menor - e no episódio das escutas a Belém). Foi muito benévolo com os retalhos de uma governação falsa e ruinosa, porque acredita na estabilidade dos sistemas e no princípio separação de poderes. A autodesignada “magistratura de influência” foi , deste modo, uma “magistratura de conivência”. Não se pode estender e preservar ao máximo a estabilidade política, quando está em causa o normal funcionamento de um Estado-povo – e não das suas instituições – ao ponto de, numa repetição histórica, finalmente (?) percebermos que precisamos de arrumar a nossa casa com as regras que acabarão por ser definidas pelos outros – o que nem é assim tão irracional, se atendermos que são os credores que mantêm Portugal a funcionar. Se nos emprestam os recursos – e em 2011, vão ser necessários 50 mil milhões de euros – é natural que queiram saber o que vamos fazer com tais recursos e, sobretudo, como iremos devolvê-lo com juros.
Nesta campanha, Cavaco tem feito uma volta organizada e popularmente mobilizadora. Sinal menos: com a ajuda da má escolha jornalística, a jornada tem sido pouco esclarecedora, nada pedagógica – e nesse domínio, Cavaco nem sempre tem ajudado, porque um dia prepara-nos com uma crónica de uma crise política anunciada e, noutro, esvazia a fome de culpa colectiva, avançando que “tem pouco apetite para a dissolução”. Ora, a bomba atómica e pur si muove
Tempos houve em que graças ao filho de Boliqueime, o rectângulo avançou, cresceu, acreditámos que era possível suplantar o pessimismo-saudade. E hoje? Hoje, “Senhor, falta cumprir-se Portugal! (Fernando Pessoa, in "Mensagem").
Pontuação final: 16 valores.
 
Lavrado por diesnox at quinta-feira, janeiro 20, 2011 | Permalink |


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